Fair Play Financeiro: tudo que você precisa saber

Fair Play Financeiro: tudo que você precisa saber

Julho de 2019. Flamengo contrata Rafinha e Filipe Luís. Palmeiras traz Luiz Adriano, Victor Hugo e Ramires. Torcedores de Atlético-MG, Grêmio, Internacional, Santos e outros clubes do Brasil partem para as redes sociais para reclamar dos altos gastos em contratações que aconteceram nas últimas janelas de transferências por parte da dupla. Um dos pedidos é a implementação do Fair Play Financeiro, que iria equiparar os gastos no futebol brasileiro. Será que o sistema realmente funciona assim? Esse texto vai responder todas as dúvidas que acompanham a ideia, comentando os eventuais reflexos da mesma para o futebol brasileiro.

O exemplo da UEFA:

A ideia do Fair Play Financeiro no futebol brasileiro surgiu após a adoção da ferramenta por parte da UEFA, federação de clubes da Europa. O processo iniciou em 2010 para ser aplicado em 2011 com aprovação. Os clubes que jogariam competições da UEFA deveriam provar que não possuíam pagamentos em atraso com outros clubes e jogadores, além de taxas e impostos.

O passo seguinte ocorreu em 2013. Nesse momento, a UEFA passou a exigir equilíbrio nas contas aos clubes. Isso quer dizer que as receitas e despesas deveriam estar balanceadas, sem que fossem acumuladas dívidas. Foi criado o Club Financial Control Body (CFCB), órgão que iria analisar os dados financeiros dos clubes a cada três anos. Tal análise iniciou em maio de 2014, com as punições sendo efetivadas a partir da temporada 2014/15.

A alteração mais recente aconteceu em 2015, quando a confederação atualizou o regulamento. Foram criadas algumas normas para incentivar investimentos sustentáveis por parte dos clubes. Um passo importante foi a abertura do CFCB para instituições que não participam dos torneios da UEFA, mas que incluem em seu planejamento essa participação em um futuro próximo. A partir disso, instituições conseguem construir um crescimento com boas práticas desde seu início, o que ainda facilita no processo.

Qual o limite de gastos?

É permitido gastar até 5 milhões de euros além de suas receitas nos três anos avaliados pela UEFA. Se houver cobertura de um proprietário ou semelhante, esse limite aumenta para 45 milhões de euros, já que evitaria a criação de uma dívida insustentável. Desde a atualização de 2015, investimentos em estádios, estruturas e iniciativas para desenvolver categorias inferiores e futebol feminino não são consideradas no cálculo. É possível ver que a UEFA busca não só conter eventuais desigualdades entre os clubes afiliados, mas também promover o desenvolvimento de clubes que possuem atualmente uma estrutura menor.

As punições

As punições são decididas pelo Club Financial Control Body, variando de acordo com o desempenho financeiro do clube julgado. As medidas podem ser apenas um aviso, repreensão ou algo mais severo, como dedução de pontos, retenção de receitas, bloqueio para novas inscrições de jogadores e exclusão de competições atuais ou futuras. O caso mais grave exposto no regulamento seria a retirada de um título ou premiação.

O modelo brasileiro:

No Brasil, o Fair Play Financeiro chega como mais um passo para a profissionalização do futebol nacional. O projeto começou a ser elaborado este ano, e a ideia é que seja implementado em 2020. A CBF contratou o economista César Grafietti, com anos de experiência na elaboração de estudos anos sobre as finanças dos clubes brasileiros pelo Itaú BBA, e a consultoria Ernest & Young para tomar conta do projeto. 

O objetivo é criar um mecanismo, semelhante ao da UEFA, para reduzir práticas como atrasos de salários e grandes acúmulos de dívidas. As principais diferenças estão em algumas especificidades presentes no mercado brasileiro como as quantias arrecadadas com a venda de atletas. Se na Europa elas não são consideradas, por aqui são fundamentais para o funcionamento dos clubes. Se esse segmento de receita for desconsiderado, teremos praticamente todos os clubes punidos.

Como foi visto nos parágrafos anteriores, o Fair Play Financeiro envolve o equilíbrio entre receitas e despesas, com uma quantia limite de déficit. Isso não afetaria clubes como Palmeiras e Flamengo, que apresentaram superávits acumulados de mais R$ 100 milhões nos três últimos anos. Outros exemplos de boa gestão são Grêmio e Athletico, também fecharam o período com resultados positivos. Clubes como Corinthians, Internacional e Cruzeiro seriam punidos, após déficits de R$ 22,9 milhões, R$ 73,2 milhões e R$ 72,3 milhões, respectivamente acumulados nos últimos três anos.

Estes seriam os únicos prejudicados com um possível Fair Play Financeiro implementado no futebol brasileiro, justamente os clubes cujos torcedores se revoltam com os altos gastos dos outros. Seria melhor cobrar de seus próprios dirigentes, para que as contas da instituição entrem em equilibro, para quem sabe, em um futuro breve, contratações de peso comecem a chegar ao clube.

Texto originalmente publicado em Cadeira Central.