Esporte e Tecnologia: relação histórica em constante evolução

Esporte e Tecnologia: relação histórica em constante evolução
Por Rodrigo Romano

Tecnologia. Um tema completamente inserido no mundo atual. Diversos setores da sociedade evoluíram graças ao uso da mesma, desde os pequenos produtores e prestadores de serviço até grandes empresas multinacionais. O esporte não poderia ficar de fora deste processo. O novo texto da Cadeira Central para o Foot.Hub observa o desenvolvimento de diversas modalidades esportivas com a ajuda da tecnologia e os paradigmas quebrados ao longo do tempo. Boa leitura!

O conceito de tecnologia vem do grego e significa a técnica, arte e ofício do estudo. Este seria aplicado nos diversos setores da sociedade, com objetivo de aprimorar e desenvolver produtos e serviços. É muito comum que se pense exclusivamente em máquinas e computadores quando se trata de tecnologia, mas o conceito em si é mais amplo do que isso. De acordo com o significado visto anteriormente, afirma-se que a tecnologia chegou ao esporte muito antes do que se imagina. O primeiro relato do uso de conhecimento técnico para melhorar uma performance vem dos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim. O americano Jesse Owens utilizou uma sapatilha especial produzida pela Adidas e levou a medalha de ouro em quatro provas de atletismo: 100 e 200 metros rasos, revezamento de 4 x 100 m e salto em distância.

A evolução dos materiais demorou um pouco a acontecer. Por muito tempo as bolas de futebol ainda eram feitas de couro e seu peso dobrava em dias de muita chuva. Os uniformes também não possuíam a tecnologia atual e sofriam do mesmo efeito das bolas com chuva ou até mesmo o suor natural de jogo. A prioridade na época passou a ser a condição física e técnica dos atletas. Era a partir desses segmentos que se faria diferença na hora da competição para conquistar os títulos desejados. Um marco para a preparação física no esporte foi a Copa do Mundo de futebol de 1966, na Inglaterra. As seleções europeias implementaram um ritmo forte fisicamente, duro demais em alguns casos, e acabaram levando vantagem contra os sul-americanos. As semifinais foram disputadas por quatro países da Europa: União Soviética, Portugal, Alemanha e Inglaterra, que acabou campeã.

Percebendo a falha, o Brasil reorganizou sua preparação para o Mundial de quatro anos mais tarde, no México. Se antes o método utilizado era semelhante ao dos militares, a Confederação Brasileira contratou Carlos Alberto Parreira, que preparou uma metodologia mais condizente com o que necessitavam jogadores de futebol. Aliando a técnica com uma preparação física do mesmo nível de outras seleções, o time brasileiro levou seu terceiro troféu, após golear a Itália na final, 4 x 1. No final da década de 1980 os materiais voltam a chamar atenção. Foi nesta época que os uniformes de futebol deixaram de ser 100% algodão. A camisa da seleção brasileira para a Copa do Mundo de 1986 incluía poliéster na composição, diminuindo o peso do material. Para o Mundial seguinte, a campeã Alemanha usou um uniforme 100% poliéster, o que virou tendência para as competições seguintes.

Foi na virada para o século XXI que vieram as mudanças mais significativas, com outros esportes também mostrando evoluções também. Computadores passaram a ser utilizados para verificar o movimento do ar e da água, e body scanners são capazes de medir diversos detalhes dos corpos dos atletas. Estes dados são reunidos e auxiliam na preparação de novas roupas sob medidas para os atletas. O exemplo mais polêmico veio da natação, na Olimpíada de Pequim em 2008. O maiô LZR Racer foi lançado pela Speedo, produzido com tecido ultrafino que repele a água e comprime os músculos. Assim, o movimento do atleta é feito com mais eficiência e menos esforço. Antes dos jogos, alguns países, como a China, não acreditavam no diferencial da nova roupa, mesmo com cerca de 40 recordes batidos por quem vestia a mesma e estudos afirmando que seu uso poderia aumentar em até 2% a velocidade do nadador. Durante as competições foram mais 19 marcas superadas, sendo 18 delas com atletas que utilizavam a roupa que ficou conhecida como “pele de tubarão”. Outras empresas acabaram fazendo peças com design semelhante e o ano de 2008 terminou com 108 recordes mundiais quebrados. No final de 2009 a Federação Internacional de Natação se reuniu com 180 federações e decidiu proibir o uso desses trajes a partir do ano seguinte, criando itens específicos para as roupas que deveriam ser usadas, como material e área de cobertura do corpo.

Dois esportes que possuem muita tecnologia por trás – apesar de não parecer – são o surfe, modalidade olímpica a partir de 2020, e a esgrima. No primeiro, a prancha pode ser feita de diversos materiais, como poliuretano e resina de epóxi. Isso dependerá exclusivamente das condições do mar, cabendo ao atleta escolher o produto que lhe garantirá o melhor desempenho nas provas. Na esgrima, para começar, os uniformes são feitos de uma fibra extremamente resistente, semelhante a de um colete a prova de balas. Mas a grande tecnologia está na identificação dos pontos. Um sistema wireless integra a ponta do florete e a roupa dos competidores, emitindo uma luz verde e vermelha quando ocorre o toque de um dos esgrimistas.

Neste período, surgiram os primeiros paradigmas a serem superados pela tecnologia no mundo do esporte. A reclamação era que o uso de materiais e métodos diferentes beneficiava só alguns atletas e tornava o esporte desigual. Essa justificativa possui certa razão já que novas tecnologias só atingem uma parte do mercado, enquanto outros ficam atrasados, seja por questões financeiras ou de pesquisa. No entanto, não é inteligente parar os avanços da sociedade porque nem todos terão acesso ao novo produto. Cabe àqueles que possuem menos condições estudarem formas de conseguir o mesmo efeito com menos recursos. Outro paradigma muito encontrado na indústria esportiva é o conservadorismo. Como o esporte é baseado na paixão, qualquer alteração no produto pelo qual os fãs se apaixonaram já é motivo de muita reclamação. Basta ver um dos argumentos mais utilizados contra o VAR: “A correção do erro vai tirar a graça do jogo”. Mesmo que a mudança seja positiva, existe muito receio por parte dos torcedores, jogadores e dirigentes envolvidos nas diversas modalidades existentes.

Ao mesmo tempo que a tecnologia evoluía, o esporte foi se tornando uma indústria potente, capaz de movimentar grandes quantidades de dinheiro com transmissões dos eventos e patrocinadores. Foi a partir disso que a análise do que ocorria nas competições precisou ser cada vez mais precisa. Assim, começaram a surgir empresas e profissionais que coletam e analisam dados e informações com ajuda de ferramentas tecnológicas capazes de superar as falhas do olhar humano. Esse talvez seja o grande avanço recente, com métricas mostrando todos os detalhes do jogo. Seu principal objetivo é ajudar os atletas a vencerem seus limites e isso só seria possível com auxílio de novas técnicas e conhecimentos.

A atuação dos profissionais de análise deve ser integrada com as outras áreas do esporte, como preparação dos treinamentos, para que os dados e informações sejam realmente úteis. Alguns robôs e estruturas já são utilizados durante os treinos para que os atletas consigam realmente superar seus limites. O caminho parece claro: os atletas praticam o esporte e a tecnologia coleta o maior número possível de dados. Profissionais analisam os mesmos através de indicadores criados para atingir os objetivos do atleta. Com a interpretação das informações feita, são preparadas as atividades para os atletas seguirem sua preparação, implementando as mudanças indicadas pela análise. A atividade é praticada novamente e um novo ciclo de observação se inicia.

As análises se tornaram parte de todo o processo envolvido nas competições esportivas. Profissionais e empresas se desenvolveram com foco total nessas análises. O principal exemplo é a SAP, empresa alemã criadora de softwares voltados para diversas indústrias da sociedade, inclusive para o esporte. A empresa também foi capaz de revolucionar uma modalidade: o iatismo. Muito ligado ao vento, o iatismo era difícil de acompanhar tanto para torcedores, quanto para jornalistas e outros envolvidos. Em algumas regatas, só se descobria o vencedor depois de mais de uma hora do final da prova. Com a entrada da SAP no esporte, as informações passaram a ser coletadas e passadas para os participantes e pessoas da mídia que estiverem realizando a cobertura. A performance também foi alvo da empresa alemã e os barcos têm cada vez mais velocidade e estabilidade, com um peso menor. A logística também foi levada em conta e as peças dos barcos podem ser desmontadas, facilitando o transporte entre as provas. A SAP também atua na Fórmula 1 e no futebol, sempre envolvida na coleta e análise de dados.

Além de mudar o esporte dentro das linhas de jogo, a tecnologia está auxiliando a transformar a indústria fora dele. O setor de mídia tem passado por grande transformação na forma com que se consome o conteúdo. Criou-se uma necessidade de receber a informação cada vez mais rápida, o que nem sempre é positivo, já que a prioridade passou a ser a velocidade de entrega ao invés da qualidade. Outro setor que surgiu foi o de streaming, tema de uma série de textos por aqui. A televisão como forma de mídia já está ficando de lado, e a internet vai tomando conta, conforme pesquisas recentes. Os torcedores e espectadores também estão aproveitando as novas ferramentas, e o fenômeno da segunda tela é um exemplo disso. O fã acompanha seu esporte favorito e ainda utiliza suas redes sociais, ou até mesmo assiste duas partidas de forma simultânea. Torcedores também têm acesso aos dados coletados pelas grandes empresas e passam a acompanhar os esportes de outra forma. Além disso, a experiência ao vivenciar o esporte mudou, com inclusão da tecnologia. Muitos estádios e arenas ao redor do mundo contam com serviços de compra realizados através de aplicativos, desde os ingresso até os lanches feitos durante o jogo. No Brasil a primeira iniciativa acontece através da parceria entre Corinthians e IBM, buscando melhorar a experiência do torcedor na arena do clube nos dias de jogo através de inteligência artificial.

A tecnologia iniciou de forma tímida no esporte. Assim como na sociedade de maneira geral, essa vem crescendo cada vez mais rápido nos últimos anos e serve como diferencial competitivo. Para quem deseja se tornar vencedor em sua modalidade é essencial estar observando as inovações que surgem e acompanhar sua evolução. Como vimos, contrariar o desenvolvimento de um esporte é algo que não fará bem a indústria, e aceitar seus avanços é parte do processo.