Crise do FootHub

Crise do FootHub

Antes de encerrar a temporada 2019, o FootHub promoveu mais um baita encontro sobre comunicação. De um lado, o assessor de imprensa João Paulo Fontoura, do Grêmio. Do outro, a repórter e produtora Renata de Medeiros, da GauchaZh. O tema? Gerenciamento de crise.

Com a experiência de quase uma década no clube gaúcho, JP Fontoura acompanhou de perto uma profunda transformação na maneira das instituições esportivas utilizarem a assessoria de imprensa. Para iniciar a palestra, ele ressaltou que é seu trabalho fazer jornalismo como assessor de imprensa, e que seus atos têm consequências, tanto internas, envolvendo outros profissionais do clube, quanto externas, atingindo principalmente imprensa e torcedores.

Dentre as tarefas do assessor, está a organização das entrevistas coletivas. Seu papel aqui é controlar o conteúdo que será criado por terceiros, minimizando a repercussão de alguns fatos e protegendo os atletas da insatisfação e da cobrança. JP contou alguns aspectos que devem ser trabalhados em relação às coletivas. É preciso distribuir os atletas para as entrevistas considerando momentos bons e ruins. Os jogadores não podem ficar separados entre os que falam nas vitórias e os que falam nas derrotas. A relevância do momento e do personagem deve ser considerada, além do poder de indignação que algum atleta possui e que pode transmitir na entrevista. Dois exemplos passados foram de Marcelo Grohe falando após a eliminação na Copa do Brasil 2018, mostrando a relevância do momento, e Kannemann dando entrevista após derrota para Universidad Católica na Libertadores de 2019. O argentino demonstrou indignação com a situação do time, mostrando para todos que as coisas precisariam mudar para a sequência do ano.

O assessor se relaciona com diversos personagens do futebol, destacados pelo palestrante. A relação do profissional do clube com o assessor pessoal dos atletas pode se tornar algo complexo, pois ambos possuem interesses diferentes. É preciso criar uma relação de cortesia e reciprocidade, mas sem esquecer que os interesses do clube precisam estar em primeiro lugar. Com a imprensa, é criado um conflito entre a verdade e a versão oficial. O assessor deve saber controlar este aspecto, pois a versão do clube pode evitar algumas crises.

João Paulo destacou alguns aspectos que ele considera fundamentais no gerenciamento de crise no seu dia a dia. Todos os envolvidos na crise precisam ser ouvidos, para que haja unidade no discurso adotado pelo clube. As situações de crise podem ser previsíveis em alguns casos e, por isso, é preciso que alguns cenários sejam antecipados. As dificuldades seriam minimizadas, existindo quase que exclusivamente quando a crise ocorrer de maneira imprevisível. Para finalizar, JP lembrou que o que funciona hoje não necessariamente pode funcionar em um momento futuro, sendo preciso analisar cada situação de maneira diferente.

Totalmente inserida na Era Digital, Renata finalizou sua graduação com o trabalho de conclusão focado no gerenciamento de crise. Isso fez com que a jornalista possua uma visão de como a área funciona também no mundo corporativo, comparando com o mercado esportivo. Em ambos os casos, quase ninguém está preparado para uma crise. É preciso ter um plano para conduzir a narrativa do fato, fazendo com que a instituição sofra o menos possível.

A principal premissa da área é contar tudo e depressa, sendo 20 minutos o tempo máximo para a divulgação da posição do clube. É importante lembrar que a gestão de crise é algo institucional e deve estar relacionada com a comunicação do clube.

Renata trouxe dois exemplos de crises recentes no futebol brasileiro e como estas foram trabalhadas pelos clubes. A primeira foi o incêndio no CT Ninho do Urubu do Flamengo, que culminou na morte de 10 garotos das categorias de base do clube. Este demorou para se pronunciar, deixando para a imprensa construir toda a narrativa de fatos. A consequência disso foi a imagem da instituição ainda mais prejudicada. O primeiro pronunciamento de algum representante do Flamengo durou cerca de um minuto, sendo insuficiente para que a crise tivesse fim. O outro caso foi o rebaixamento do Internacional. A rodada decisiva do campeonato brasileiro de 2016 foi adiada graças a tragédia envolvendo o avião da Chapecoense. Dirigentes e jogadores colorados foram responsáveis por atitudes contrárias ao contexto do futebol brasileiro, que se solidarizava com o clube de Chapecó. A palestrante destacou que a estrutura organizacional do clube gaúcho, com 14 dirigentes de alto escalão, atrapalha na transmissão de uma mensagem institucional, e lembrou do Bahia, que possui apenas quatro e se destaca na forma como se comunica.    

Para fechar, Renata trouxe os quatro tópicos que um plano de gestão de crise deve ter. O primeiro é a avaliação da vulnerabilidade, levantado as possíveis crises futuras. Em seguida é preciso criar um plano de resposta para cada uma das crises que podem ocorrer. O passo seguinte é o desenvolvimento de modelos de comunicação para a imprensa. Isso evitaria possíveis erros na transmissão da mensagem institucional. Por fim, estar em contato constante com os principais agentes do mercado, tentando antecipar as vulnerabilidades identificadas no começo do trabalho.

A área de gestão de crise ainda é nova no futebol e as diversas situações vistas diariamente no futebol brasileiro mostram isso. A dupla JP e Renata deu aula sobre o assunto no FootHub, mostrando que as situações podem ser trabalhadas de forma diferente, gerando um resultado positivo para todos os envolvidos.

Fotos: Leo Moraes