Concentração de renda no futebol brasileiro

Concentração de renda no futebol brasileiro

Desde a renovação dos contratos de televisão dos clubes com a Rede Globo para o período 2016–2018, existiam muitos debates sobre os rumos que o futebol brasileiro tomaria. O termo espanholização foi criado e um futuro desigual era anunciado.

O tempo passou. A desigualdade já está presente no futebol brasileiro? Parece que sim, afinal, Palmeiras e Corinthians têm se revezado como campeões brasileiros. Mas a espanholização não envolveria Flamengo e Corinthians? Para responder estas perguntas, surge este estudo sobre a concentração de renda no futebol brasileiro, produzido por Cadeira Central.

Metodologia

Para realização do estudo foram coletados dados financeiros dos vinte clubes de maior receita do futebol brasileiro ao longo dos últimos sete anos, a partir dos balanços patrimoniais publicados nos sites das respectivas associações. Com os números selecionados, foi feito o cálculo individual de quanto corresponde a receita de cada um desses em relação ao total. Tabelas foram criadas para auxiliar no momento da análise e estarão expostas ao longo do trabalho. Os números das temporadas anteriores foram utilizados para que se analise a existência de uma tendência ou não em relação à distribuição de receitas da história do futebol brasileiro.

Números

As maiores receitas e sua representatividade.

O Palmeiras foi o clube que mais arrecadou em 2018, fechando o ano com R$ 653,8 milhões. Tal valor representa 12,87% do total arrecadado pelos 20 clubes selecionados. Na sequência está o Flamengo, com R$ 516,8 milhões de receita, 10,17% da somatória. O terceiro clube foi o Corinthians, com receita de R$ 456,7 milhões, 8,99% do mercado. Na quarta posição se encontra o São Paulo, que teve como receita um total de R$ 410,1 milhões, correspondendo a 8,07% do valor arrecadado pelos 20 clubes. Fechando os cinco primeiros, o Grêmio somou R$ 420,3 milhões de receita, 8,27% do total analisado.

Em relação aos times de menor arrecadação, o Coritiba teve a quinta receita mais baixa com R$ 95,6 milhões, 1,88% do mercado. Em seguida aparece o Vitória com arrecadação de R$ 82,5 milhões, o que corresponde a 1,62% da somatória. O Goiás foi o terceiro time de menor receita, com R$ 75,1, o que representou 1,48% do total dos 20 clubes analisados. A Chapecoense foi o penúltimo time entre os selecionados, com receita de R$ 75,1 milhões, 1,48% do total. Por fim o Ceará foi o vigésimo time em arrecadação, R$ 64,7 milhões, 1,28% do mercado.

Análise

É possível observar a partir da tabela inicial que existe uma concentração de renda com alguns clubes. O primeiro parágrafo da seção anterior mencionou apenas os cinco primeiros, ou seja 25% do total. Essas associações são responsáveis por gerar 48,39% do valor total arrecadado pelos 20 clubes de maior receita. Do lado contrário, os 25% de menor receita são responsáveis por apenas 7,74%. Isso quer dizer que, se os cinco mais pobres da amostra formassem um clube único, seriam apenas o sexto em percentual de renda.

2018 mostrou um comportamento contrário nas duas extremidades da primeira tabela. Destacamos elas separadamente na sequência. A renda dos cinco mais ricos variou bastante nos cinco primeiros anos analisados. Seu pico havia sido em 2013, ano em que os clubes faturaram alto com negociação de atletas, correspondendo a 47,1% do total. Em 2017 este patamar voltou a ser atingido, com os cinco mais ricos arrecadando 47,89% do total. Para este ano, o valor aumentou ainda mais. Nos números referentes à 2018, este indicador alcançou 48,39%. Em relação aos cinco mais pobres, sua significância crescia desde 2012, até o pico em 2016, quando faturaram 9,65% da amostra. Foi o ano em que a maioria dos clubes recebeu luvas pela assinatura de contrato de transmissão, alguns com a Rede Globo, outros com o Esporte Interativo. Nos últimos dois anos, o indicador apresentou queda. Chegou em 8,36% em 2017 e 7,74% em 2018.

Percentual de renda dos cinco clubes mais ricos do futebol brasileiro, por ano.
Percentual de renda dos cinco clubes mais pobres do futebol brasileiro, por ano.

Apesar de as duas pontas chamarem mais atenção, são os clubes que estão localizados no meio da tabela inicial que vêm sendo mais prejudicados com essas mudanças no cenário financeiro da elite do futebol brasileiro. Como é possível ver no próximo gráfico, os percentuais que correspondem aos clubes de 6ª até 15ª diminuíram significativamente nos últimos anos. Do sexto ao décimo, o indicador esteve variando entre 16% e 18% nos primeiros cinco anos analisados. Em 2017 o número cai para 15,55% com um pequeno avanço em 2018, chegando a 15,78%. Em relação a faixa seguinte, do décimo primeiro ao décimo quinto, o valor correspondia a cerca de 30% nos primeiros anos. Em 2017, o indicador atinge 28,19%, seguido de mais uma leve queda em 2018 para 28,09%. Isso mostra que estes clubes se distanciam cada vez mais dos clubes da ponta do ranking.

Concentração de renda por faixa de cinco clubes.

Conclusão

Para a conclusão foi elaborado o Coeficiente de Variação, medida estatística vista em diversas áreas de estudos. Aqui, o coeficiente será utilizado para mostrar uma possível desigualdade no mercado brasileiro. Seu cálculo é feito a partir da divisão entre o desvio padrão da amostra e a média da mesma. Seu valor fica entre 0, para mais igual, e 100%, mais desigual. Como vimos ao longo do texto, foi nos dois últimos anos que a desigualdade se estabeleceu no futebol brasileiro. O valor em 2017 foi quase 10% maior que no ano anterior, chagando em 64,87%. Para 2018, novo crescimento, fechando o período analisado em 66,86%

Coeficiente de variação, indicador de desigualdade.

Após a análise destes números, fica claro que a desigualdade está presente no futebol nacional. O nível de concentração de renda já era alto, mas alguns fatos acabaram mascarando essa tendência: As luvas de televisão em 2012, o Profut em 2015, e novamente as luvas em 2016, agora com a entrada do Esporte Interativo no mercado, citados todos em nosso Histórico Financeiro. Os clubes menores também receberam estas vantagens, que influenciaram no resultado. Nos anos em que não houveram eventos externos, é possível observar melhor a tendência. Para o futuro, essa concentração só deve aumentar. Os clubes com mais receita conseguem montar times mais competitivos na maioria dos casos, gerando arrecadação com bilheteria, sócio torcedor, venda de atletas e atraindo mais patrocínios. Enquanto isso, os clubes de menor receita parecem acomodados em sua situação, com apenas algumas exceções buscam inovações capazes de leva-los a um nível acima do que estão hoje.

Texto de Rodrigo Romano, do Cadeira Central