Catar, o país do futebol

Catar, o país do futebol

Por Luis Henrique Rolim

Entre sheiks e sheikas, flutuando numa das maiores reservas de gás do planeta, o Catar finalmente chegou onde gostaria de estar: entre as grandes potências do futebol mundial. Hoje, o pequeno país situado no Golfo Pérsico é o país do futebol.

Sim, pois além de ser o país que investe na compra de direitos de transmissão (BeIN Sports), de clubes europeus (como o Paris Saint-Germain), de patrocínio de competições (por exemplo, a Copa Libertadores); é sede da Copa do Mundo em 2022 e foi recentemente escolhido como sede do Mundial de Clubes (2019-2020).

Assim, participação da sua seleção na Copa América é a consolidação de um projeto nacional audacioso, que envolveu muito (mas pense muito) investimento financeiro e, ao mesmo tempo, diplomacia para superar amarras políticas e culturais históricas.

Você talvez esteja agora se pergunta o porquê de tudo isso. Afinal, o que realmente significa para os Cataris estarem participando de uma copa com seleções sul-americanas e ao mesmo ser sede dos eventos mais cobiçados no mundo da bola.

Fama? Dinheiro? Sucesso? Por mais incrível que pareça, não é esse o carro chefe das motivações por trás dessa invasão Qatari no mundo do futebol.

Enquanto a maiorias das pessoas do mundo “ocidental” correm em busca disso, os Cataris (leia-se família real) visam através do futebol consolidar sua imagem enquanto um país pacífico, moderno e aberto ao mundo ocidental. A ideia de investir em esporte, serve para quebrar estereótipos de “terroristas” e “fanáticos”, construídos historicamente através de narrativas midiáticas e políticas.

Então, o “projeto futebol” do Catar ultrapassa as quatro linhas. É um projeto nacional de segurança que se utiliza dos sentimentos e imagens positivas que o esporte produz, para exercer influência política na região e consolidar, cada vez mais, a família real no poder do país. Em outros termos, é o uso do esporte para construção de uma identidade nacional dentro e fora do país.

Seleção do Catar ainda busca relevância internacional

“Ah, mas o futebol não pode se misturar com política”, diria aquele porta-voz oficial de uma dessas instituições renomadas.

Amigão, desde que o esporte nasceu, ele possui um viés político-nacionalista. Ou vocês acham “normal” a reprodução do hino NACIONAL em cada jogo de futebol no Brasil?

Outra: por que a maioria das pessoas torce o nariz quando veem atletas de outras nacionalidades, competindo, por exemplo, pelo Catar? Se para essas pessoas o esporte fosse somente entretenimento, qual o problema de um país, seguindo todas as regras oficiais, reforçar sua seleção para produzir um melhor espetáculo para os consumidores?

Elementar, queridos e queridas leitores.

Esse sentimento de “traição” por uma seleção incorporar atletas de outras nacionalidades é porque está no DNA do futebol que ele representa para os torcedores muito mais do que um simples espetáculo midiático e de diversão.

Mas hoje é dia de amistoso do Catar com a seleção brasileira. Então gostaria de lembrar o quanto o futebol brasileiro influenciou (e está influenciando), através de profissionais, como jogadores, treinadores, etc., no processo de construção do futebol no Catar.

Talvez você não saiba, o treinador mais respeitado, historicamente falando, pelos Cataris (incluindo família real) se chama, Evaristo de Macedo.

Tive a oportunidade de entrevistar o Evaristo ainda quando eu trabalhava para o projeto do museu nacional do esporte no Catar. No dia do encontro, no seu apartamento no Rio de Janeiro, obviamente, já sabia o quanto ele era prestigiado no país. Afinal, antes do Catar conquistar a Copa da Ásia no ano passado, a maior glória do futebol Catari era ter sido vice-campeão mundial sub-23, em 1981 na Austrália, após ter vencido a seleção brasileira de Mauro Galvão por 3 a 2 nas quartas de final.

Como jogador, Evaristo fez história com a camisa do Barcelona

Quem era o treinador? Evaristo de Macedo.

Mas além disso, ele levou a seleção de futebol do Catar às suas duas únicas participações Olímpicas (1984 e 1992) e também ao título inédito da Copa do Golfo em 1992. Fora das quatro linhas, o treinador brasileiro praticamente foi o responsável por “profissionalizar” o futebol Catari, ao levar consigo uma comissão técnica e implementar metodologias de treinamento, preparação física, etc.

Mas existem outras centenas de brasileiros que trabalham no anonimato e que são responsáveis pelo desenvolvimento do futebol no país árabe. Um exemplo disso, é o treinador de goleiros José Luiz “Borrachinha”; que eu tive o privilegio de documentar em vídeo sua trajetória de mais de 30 anos no Catar. Veja o documentário curto abaixo:

O ex-goleiro do Botafogo que parou Zico & Cia. no famoso jogo da invencibilidade em 1979, foi treinador de goleiros, entre outros clubes, na Academia Aspire. A Aspire é o centro de excelência esportiva do Catar, que visa captar jogadores jovens em situação de vulnerabilidade no mundo e oportunizar para eles um caminho através do esporte. Assim, é na Aspire que se formou e se forma o embrião da seleção de futebol do Catar. E quem estava lá formando os jovens atletas para a seleção Catari? Sim, Borrachinha.

Enfim, é preciso entender que o Catar não se tornou esse “país do futebol” da noite para o dia, muito menos foi um processo histórico do acaso. Podemos discutir se seria possível o Catar, sem os recursos financeiros, chegar até onde chegou. Mas também pensar do que seria (ou será) o futebol mundial sem os Cataris.

Luis Henrique Rolim é doutor em Ciências do Esporte pela Universidade Alemã do Esporte em Colônia, onde recentemente apresentou sua tese “A Construção de uma nação Olímpica no Golfo Pérsico: história sociocultural do esporte no Catar (1948-1984)” onde traz de forma inédita como se deu a apropriação do esporte moderno no país e os seus usos para construção da identidade nacional. Atualmente, Rolim desenvolve consultorias e workshops para projetos culturais e expográficos, de ensino e pesquisa, além de atuar na área de formação pessoal e profissional. É pesquisador convidado do Grupo de Pesquisa em Estudos Olímpicos da PUCRS e parceiro do Foot.Hub na elaboração de estudos voltados ao futebol brasileiro.

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