Como tudo começou

Como tudo começou

Quando recebi o convite do Nando (Fernando Martinez) fiquei extremamente empolgado com a ideia de escrever periodicamente para um blog. Era algo que já tinha pensado em fazer mas não havia encontrado a motivação ou talvez a inspiração necessárias… Dessa vez aceitei o desafio e resolvi embarcar de peito aberto nessa ideia! Escrever para o Foothub e com o apoio desses caras?!? Lógico!!

Como tudo começou

Minha história dentro do futebol, como quase todo brasileiro, começou bem cedo. O final de semana era praticamente voltado só pra isso. Aos sábados íamos com meu pai Vitorio, meu irmão Franco, o carro cheio de amigos e eu para o bairro Vila Nova. Lá havia um campo, um galpão com churrasqueira e um monte de veios (amigos do pai) que passavam o dia jogando, discutindo e assistindo futebol. Quando liberavam o campo, era a hora da gurizada sujar os pés e jogar até se cansar. Chegávamos lá por volta das 2 da tarde e ficávamos até escurecer.

Aos domingos íamos ao Gigante da Beira-Rio. Bem novo (cerca de três anos de idade) com meu pai e mais tarde com minha mãe. Meu pai já era sócio e conselheiro do clube e ia com sua turma nas cadeiras locadas do estádio. Usando da melhor artimanha para convencer uma criança a gostar de ir ao estádio, me enchia de pipoca, amendoim e picolé. Até porque a fase do time não era das melhores naquele período. Foi então que um dos seus amigos (Fernando Carvalho), que já fazia parte da diretoria do clube comandando as categorias de base, decidiu reunir seu grupo e montar uma chapa pra concorrer à diretoria. Ganharam a eleição e passaram a comandar o S.C. Internacional a partir de 2002. (Eu tinha 9 anos de idade).

Daí pra frente foram 11 anos como diretor, sendo destes um como vice de finanças, quatro como vice de futebol e quatro como presidente, consolidando-se como o diretor com o maior número de títulos da história do clube. Me limitarei a falar do veio aqui, pois não é este o foco. Mas é impossível falar da minha história dentro deste esporte sem explicar como tudo começou. E começou com ele. Eu vivia dentro do clube. Gostava não só de acompanhar os jogos, mas de estar dentro do vestiário, ver os caras de perto, assistir palestras de treinadores, conversar com roupeiros e massagistas, desfrutava daquele ambiente e me sentia em casa. Vivia dentro de um dos vestiários mais vencedores da história do clube, acompanhando meus ídolos de muito perto. Observava a postura, o respeito, a descontração, a tensão em decisões, a frustração nas derrotas e o êxtase nas vitórias. Como não desenvolver uma paixão por tudo aquilo?

Comecei jogando futsal, passei por algumas escolas de futebol e por último antes de me profissionalizar, na Escola Rubra. Quando comecei a jogar eu não era talentoso, nem praticava unicamente futebol. Mas sempre fui muito competitivo. Dava a vida. Aquela velha história de não querer perder nem par ou ímpar, sabe? Meu irmão que o diga. Quando eu estava perdendo, dava algum jeito de sabotar as regras do jogo pra inverter o placar. Isso só não funcionava no tênis! Esporte que eu mais praticava até meus 15 anos. Eram 4 treinos de tenis e 3 de futebol por semana. Fazia parte da equipe da SOGIPA. Só que quando haviam as competições de tenis aos finais de semana, eu sempre acompanhava meu pai no futebol. Até que a treinadora chegou em mim e disse que eu teria que optar entre um esporte outro, para poder me dedicar de forma mais intensa. Com 15 anos então decidi que iria ser jogador profissional de futebol.

Foi uma decisão que não foi muito bem aceita pela minha família. As expectativas eram outras. Estavam muito mais relacionadas à uma carreira voltada para os estudos do que para o desporto. E eu entendo sua preocupação naquele momento, pois sabiam da dificuldade que era se tornar profissional. Principalmente meu pai, por estar no meio há muitos anos, entendia que para vencer no futebol, aquilo ali precisava ser “o prato de feijão”. E pra mim nunca foi. Inclusive esse pensamento é recorrente no meio. Enfrentei muitas dificuldades até conseguir provar que mesmo não precisando sustentar uma família através do esporte, eu daria a minha vida por aquilo. Que correria tanto quanto os outros. Que iria aonde fosse e faria o que fosse preciso para vencer, para “chegar”.

Tive um início tardio. Me vi muito atrás dos outros atletas nas questões física e competitividade. Os garotos de 15/16 anos já tinham barba na cara e corpo de homens maduros. Eu ainda era um guri. Foi um começo de extrema dificuldade. Eu sabia que com o tempo iria iguala-los na questão física, então precisava me destacar na questão técnica. Como não era um zagueiro de força, comecei a desenvolver minha técnica. Ficava após os treinos batendo paredão. O roupeiro Caco e o roupeiro André ficavam loucos comigo… Queriam ir pra casa descansar mas não podiam, pois eu ainda não havia entregue o uniforme. Me pediam pra eu não demorar, mas não havia outra saída. Eu precisava correr atrás do prejuízo. Eles então deixavam minha caixa com minhas roupas do lado de fora e trancavam o vestiário. “Ótimo, assim tenho o tempo que preciso pra treinar a mais e eles podem descansar.”

Primeira experiência na Europa

Logo após assinar meu primeiro contrato como profissional (2009 – 16 anos de idade) surgiu a possibilidade de ficar um período de experiência na Juventus de Turim. O time B do Inter iria participar de uma competição na cidade italiana e eu peguei” carona” com eles até lá. A equipe juvenil da Juve estava concentrada em uma pequena cidade e eu os encontrei lá. Isso foi algo me marcou muito: já desde o mirim, os atletas viajavam e ficavam concentrados em uma pequena cidade para fazer pré-temporada. Após os dois primeiros treinos já pude tirar as seguintes conclusões: tecnicamente estava na frente, mas física e taticamente estava atrás. Essa é a clássica visão de um brasileiro que chega cedo ao exterior. De forma geral, essa é a imagem que o jogador brasileiro tem na Europa. Dotado de uma qualidade técnica incomum, mas sem muita cultura e comprometimento com a questão tática. Repito: de forma geral.

Nos dias de hoje, vejo as categorias de base dos times grandes com treinadores muito capacitados, que têm feito com que o nível de entendimento tático dos atletas venha aumentando, diminuindo este contraste quando mudam para o velho continente.
Acabado este período de experiência, voltei ao Inter onde acabei jogando poucos jogos. Era hora de sair para jogar. Então com 18 anos comecei a rodar equipes “menores” em busca de experiência e minutos de jogo. Passei por Caxias, Canoas, Cerâmica, Vasco da Gama e fui parar no Juventude, onde me profissionalizei. Com 20 anos, não seria aproveitado no profissional do Ju e acabei emprestado junto com outros 5 atletas ao Brasil de Farroupilha, para disputa da Divisão de Acesso do campeonato Gaúcho. Tive uma boa sequência de jogos como titular e quase obtivemos o acesso. Perdemos na final para o União Frederiquense.

Foi uma experiência que engrossou “meu lombo” (que nem dizem os gaúchos, sobre ganhar experiência e ficar mais cascudo). A divisão de acesso é um campeonato super equilibrado e difícil de jogar. Os clubes que disputam não tem outra competição no ano e fazem de tudo pra chegar o mais longe possível com pouquíssimos recursos. Atletas buscam dar a vida para poderem conseguir algum contrato no segundo semestre, senão a alternativa será buscar algum trabalho temporário fora do futebol. Isso torna a competição um cenário totalmente diferente do que vemos na serie A do brasileiro, por exemplo. É uma questão de por o pão na mesa ou não. Dos filhos poderem frequentar uma boa escola ou não. De ter grana pra se manter o resto do ano ou não. A visibilidade é pouca e o prestígio menos ainda, mesmo assim é um prato cheio para milhares de atletas que sonham em jogar no mais alto nível. Entre tantas histórias de craques que hoje ganham milhões e há pouco tempo jogavam em clubes pequenos, vivem estes guerreiros acreditando que podem ser os próximos a “dar o chute certo”.

Experiência vencedora com grande treinador

Passado o acesso, voltei ao Juventude, onde disputamos e vencemos a Copa Gaúcha com o time B, comandado pelo hoje técnico do Athletico Paranaense, Tiago Nunes. Foi uma experiência tão proveitosa que muitas coisas que aprendi naquele período, com aquela comissão técnica, levarei para sempre comigo. Tínhamos um grupo muito qualificado mas o relacionamento e a convivência entre jogadores não era das melhores. Era um grupo bem dividido, mas que com o comando do Tiago e da sua comissão técnica pôde ser vitorioso. Conseguimos nos unir por um só objetivo: vencer. Com isso em evidência, as diferenças se tornaram secundárias e aquele grupo marcou nossas vidas.

Segunda ida à Europa e a decepção

Não renovei meu contrato com o Ju e embarquei pela segunda vez para a Europa, desta vez Portugal. Mesmo com 1,5 anos de contrato, após seis meses o clube declarou falência e foi rebaixado para a última divisão, rompendo com todos os contratos que estavam em vigência. Por conta disso perdi a janela de transferências e fiquei sem clube por 6 meses.

Conquista e aprendizados nos EUA

Fui então para o Tubarão, em Santa Catarina. Subimos da segunda para a primeira divisão estadual e meu contrato foi renovado. No segundo semestre de 2017 fui emprestado para o clube que o grupo que comanda o Tubarão havia comprado nos EUA. Era o ano de estréia do clube e fomos campeões nacionais. Foi outra experiência espetacular. Mais no âmbito pessoal do que profissional. Por ser o primeiro ano do clube, ainda faltavam diversas questões estruturais que um atleta profissional necessita. Precisava me virar com a alimentação, treino em academia, suplementação, lavagem e cuidado do material, etc…

Inicialmente esta situação provocou um choque de realidade. Em que clube profissional o atleta lava seu próprio uniforme e planeja seu próprio treino na academia? Pode parecer bobagem, mas ainda não tinha vivenciado isso na minha carreira. Com o tempo, essa vivência foi de grande valia no meu amadurecimento. Passei a valorizar muito mais os pequenos detalhes como a comida do refeitório, a roupa lavada, a orientação no treino da academia… Precisei aprender ainda mais sobre preparação física, nutrição e tudo que cerca o atleta de alto rendimento. Isto fez com que eu me tornasse um atleta muito mais profissional e atento com minha rotina.

Terminada a competição, voltei ao Brasil e acabei indo disputar minha terceira divisão de acesso do estadual, desta vez pelo Inter de Santa Maria, treinado pelo atual técnico da Ferroviária (SP) Vinicius Munhoz. Com ideias muito parecidas com as do Tiago Nunes, foi outro grande trabalho que muito me ensinou. A forma como ele trata e respeita os atletas, como enxerga, estuda, vive e desfruta do futebol. Passou para o grupo lições de vida. De profissionalismo e de respeito para com o ser humano. Junto com sua comissão técnica, soube liderar o grupo como ninguém e batemos na trave no acesso, caindo pro Pelotas fora de casa (2018) na semi-final.

O retorno para a Europa

Após disputar a copinha pelo Real de Capão, me apresentei no Glória para disputar o que seria meu quarto acesso. Depois de um mês de pré-temporada, em uma bela tarde recebo uma ligação de quem veio a se tornar meu empresário (Adriel Gabilan). Ele havia visto meu material no Youtube e queria me levar pra um time na Finlândia. “Como assim?”, eu pensei. Como podia alguém ter visto meu vídeo no youtube e me oferecer um contrato assim, do nada? Na hora fiquei meio receoso com a proposta. Não só por não o conhecer, mas também por ter experimentado diversas situações como esta que deram em nada. Mas dessa vez foi diferente. Foi a oportunidade que eu queria de poder retornar ao velho continente, fazer uma temporada inteira como titular e abrir mercado. Ao final do dia ele já estava me enviando o pré-contrato e em uma semana eu estava embarcando junto com outros 2 brasileiros.

Chegamos no final do inverno, com temperaturas bem abaixo de zero e poucas horas de sol. Treinávamos em um campo fechado e mesmo assim perdi três vezes as unhas do pé. Com o frio, mesmo após o aquecimento, o corpo ainda não estava 100% pronto para a atividade física e enfrentei pequenas lesões por conta disso. Em nenhum momento parei de treinar, mas convivi com elas durante boa parte da temporada. Com o tempo fui me adaptando e fazia um pré-aquecimento dentro do vestiário, antes de sair pro campo.

O choque cultural é muito grande pra quem sai do país pela primeira vez e pude observar isso com um colega brasileiro que veio junto nessa jornada. Ele não falava inglês e teve muita dificuldade na adaptação. Por sorte haviam outros brasileiros no time que lhe ajudavam. Por não conseguir se comunicar, muitas vezes virou motivo de chacota, pois falava em português esperando que os finlandeses entenderiam. Foi uma situação bem cômica. Por eu já ter vivido no exterior outras vezes, consegui lidar melhor com algumas dificuldades, mas acredito que o que mais impera em tempos difíceis é o teu propósito. Tua meta. Aquilo que te motivou a tomar aquela decisão. Essa meta era muito clara pra mim e eu a reforçava em todos os momentos de luta. Nas pequenas vitórias sentia que estava no caminho certo e meu combustível se renovava.

São grandes as diferenças do futebol praticado por aqui se comparado ao Brasil. Tanto em termos técnico/tático como em estrutura. Os jogadores finlandeses não são tão técnicos e criativos como os brasileiros. Portanto ficam muito dependentes de sistemas táticos e organizações coletivas para produzirem. E nisso eles são bons. Encontramos diversos times com bons conceitos de jogo, organizados, que sabem o que devem fazer em cada fase do jogo. A maioria dos campos são sintéticos por culpa do clima, sendo que quando neva os treinos são em campos cobertos.
Já quando falamos sobre motivação aparece outra grande diferença. No Brasil estamos acostumados a ver jovens lutando pelo sonho mas com a responsabilidade de ser a esperança financeira de uma família. Na Finlândia existe pobreza mas ninguém passa fome. As pessoas que recebem menos ou estão desempregadas recebem ajuda do governo. Estudantes além de não pagarem pelos estudos, recebem casas para morar. Ou seja, futebol é secundário na vida da maioria. Jogam porque gostam. Não precisam daquilo para sobreviver. E isto muda tudo. Muda a forma como disputam as jogadas, como se dedicam, como reagem em situações de dificuldade ou estresse, como recebem e reagem a uma cobrança mais forte… Não estão acostumados com isso.
Muito por conta disso, os jogadores estrangeiros são sempre os mais cobrados. Inclusive algumas vezes de forma exagerada. Dois treinadores com quem trabalhei não hesitaram em faltar com respeito com estrangeiros ao fazerem cobranças sobre atuações, erros ou resultados de jogos. Segundo as palavras de um deles, “estrangeiro tem que ser cobrado forte porque senão não rende. E eles aguentam.”. Claro que aguentam. Já estão longe do seu país natal, da sua família, de tudo, em busca de uma situação melhor para si ou para sua família. Vão aguentar diversos tipos de pressão e dificuldades para conquistarem seu objetivo. Mas isso não significa que seja correto. Na minha opinião, um grupo deve ser cobrado de forma homogênea. Do contrário, jogadores menos cobrados estarão confortáveis caso não estejam rendendo e isso prejudica o time como um todo.
Jogar e morar no exterior é uma aventura e tanto. Não é fácil mudar de cidade, país, continente, idioma, cultura… É preciso não só uma boa preparação, como um objetivo muito claro na cabeça. Sem isso, as chances de retornar antes do prazo determinado, ou de falhar com a oportunidade são grandes. Você vai estar sozinho para lidar com muitas coisas que acontecem. Se não souber se adaptar, vai acabar voltando no próximo vôo. Mas se conseguir suportar a tempestade, a vista quando o céu se abre será linda: aprendizados, experiências, histórias para contar e uma carreira internacional.