A torcida humana e os setores sem cadeiras

A torcida humana e os setores sem cadeiras
Por Guilherme Bonilla ColoméRaphael Perdomo

O futebol, esporte mais popular do mundo, atrai a atenção de muitos indivíduos e organizações, que consentem na importância e necessidade de segurança nos estádios. Tendo em vista a natureza da matéria, os estados do Paraná e do Rio Grande do Sul interviram por meio do Ministério Público em duas praças esportivas.

Após uma vistoria realizada pela Brigada Militar, o MP gaúcho emitiu uma recomendação ao Sport Club Internacional de que todas as organizadas sejam destinadas àquele setor sem cadeiras, consoante o parecer da BM. Em que pese a resistência dos torcedores comuns e dos membros das organizadas, o argumento principal é de que a atitude tem caráter “isonômico” por ter sido tomada a mesma medida com os torcedores na Arena do Grêmio.

O clube, por outro lado, entende que o setor é destinado a qualquer torcedor que deseje assistir ao jogo de pé, independentemente de filiação às organizadas. A tendência é que a Guarda Popular se concentre no setor, enquanto Camisa 12, Nação Independente e outras torcidas organizadas continuarão utilizando espaços com cadeiras. O Internacional deseja evitar ao máximo conflitos entre as próprias organizadas, como ocorreram dentro e fora da Arena em alguns jogos do Grêmio.

Não é de interesse do Parquet e nem do Internacional que esses conflitos se repitam no Beira-Rio e, apesar de diferenças pontuais, os líderes das organizadas, do clube e os representantes do Ministério Público se mostram abertos a continuar debatendo e tomando outras medidas para trazer o máximo de segurança às partidas ali realizadas.

No estado do Paraná, a situação é diferente. A “Torcida Humana”, ideia elaborada pelo Ministério Público do estado conjuntamente com o Clube Athletico Paranaense aproveita uma omissão no Estatuto do Torcedor e nos regulamentos de competições regidas pela CBF e simplesmente extingue o setor específico destinado aos visitantes em jogos do rubro-negro.

E o que parecia ruim ficou pior: os torcedores que desejem assistir os embates entre seu clube do coração e o CAP na Arena da Baixada não podem utilizar as camisas do seu time, pois a vestimenta passou a ser classificada como “objeto suscetível de gerar ou possibilitar a prática de atos de violência”, enquadrando-se no inciso II, art. 13-A, do Estatuto do Torcedor.

A medida acordada entre o Ministério Público e o clube vigora desde o ano passado em jogos amistosos e de competições nacionais. Na Sul-Americana, a medida não foi adotada por determinação da CONMEBOL, que obriga o clube a vender ingressos para um setor específico aos visitantes.

O pretexto adotado pelo CAP é de que o torcedor deve assistir ao jogo aonde ele bem entender, sem ser enjaulado, diferenciado, segregado ou violentado por razão de escolher cores distintas ao dono da casa. Em acréscimo, argumentou-se que a medida diminuiria o efetivo policial, colaborando com a segurança pública municipal.

Todavia, a prática demonstrou em várias situações que a medida é um retrocesso travestido de vanguarda.  Como bem apontou Leonardo Tomeleri neste artigo,  “a medida adotada pelo CAP representa não só um retrocesso fantasiado de vanguarda, mas também viola os direitos do torcedor”, referindo-se ao art. 13 do Estatuto do Torcedor, e ao artigo 86 do Regulamento Geral das Competições regidas pela CBF.

O Athletico ainda emitiu uma nota atestando o sucesso da medida, somente para ser desmentido posteriormente pela DEMAFE, atestando a ocorrência de confusões em jogos do clube que aconteceram mesmo com a adoção da Torcida Humana. O clube ainda foi multado este ano pelo TJD-PR em 200 mil reais por descumprir o regulamento do Estadual e não reservar setor específico aos torcedores do Coritiba Football Club, colocando em risco a segurança de todos no clássico mais perigoso do Paraná.

Por fim, surgem vários relatos de torcedores “visitantes” que foram assistir ao seu time em meio aos Athleticanos sem suas vestimentas, mas que ainda assim foram hostilizados, agredidos e ameaçados pelos donos da casa. 

Ao contrário do que a medida pretendia, os torcedores visitantes foram enjaulados para fora do estádio, privados da expressão genuína e da experiência de torcer no estádio por uma intervenção completamente equivocada do Ministério Público que, apesar bem intencionada, demonstrou o enorme despreparo do órgão para lidar com o esporte bretão e seus adeptos.