A inovação já é realidade no futebol europeu

Por Rafael Weber

Das finanças ao varejo, da construção civil ao transporte, da medicina à educação. O universo do trabalho está sendo alterado. E o futebol está bem no meio dessa transformação.

Há anos, a Europa tem colonizado o futebol e deixado os outros continentes para trás. O Brasil foi o último sul-americano a ganhar uma Copa, em 2002. De lá para cá, todos os campeões foram europeus. Entre os clubes, o domínio é ainda maior. Nos últimos dez anos, todas as edições do Mundial da FIFA foram vencidas por europeus – salvo em 2012, quando o Corinthians bateu o Chelsea.

Centro do poder e do dinheiro do futebol internacional, a Europa forneceu 75% dos jogadores que estavam na Copa em 2018, um número recorde. A realidade do ponto de vista financeiro não pode ser ignorada, mas existe uma outra palavra para este domínio europeu: organização.

O sucesso tem uma relação direta com os recursos investidos, estabilidade e um plano claro para tornar o futebol uma atividade rentável para, justamente, garantir mais investimentos. Federações e clubes europeus têm criados células de inovação, com o objetivo de reescrever o negócio, transformar as corporações e construir o futebol do amanhã.

O objetivo é analisar todos os setores onde a organização possa atuar. Trabalhar multimercados faz parte da estratégia. Eles testam limites, desafiam fronteiras e desenvolvem soluções que podem, inclusive, canibalizar o que é feito hoje. Como a realidade futura não será a mesma da presente, clubes e federações europeias são estimulados a empreender inovações disruptivas de verdade.

O Barcelona se encontra em um estágio bastante avançado no projeto ao qual deseja ir além, deixando der somente um clube desportivo e passar a ser uma máquina de entretenimento. É com o Silicon Valley – Vale do Silício – que o FC Barcelona prepara o seu futuro.

O FC Barcelona pretende ser o grande centro de inovação da indústria do desporto a nível internacional, baseando-se na capacidade do clube em ser inovador com a ajuda de terceiros. O clube possui um grande laboratório e deseja contar com outras empresas para levar a cabo uma grande revolução. A ideia do Barcelona não passa apenas por desenvolver um centro de inovação, mas também tornar o clube em uma empresa de entretenimento, mantendo sempre viva a identidade associativa do clube. O objetivo do clube é conseguir reunir um conjunto de empresas que ajude a transformar o futuro do desporto, construindo um ambiente privilegiado que permita formar um laboratório desportivo, que permita idealizar, testar e desenvolver novas ideias, conhecimentos, produtos e serviços que ajudem a promover o desenvolvimento do desporto.

O Barça Innovation Hub – Centro de Conhecimento e Inovação Desportiva do clube – já atua em diversas frentes: (1) Desportos Coletivos – promovendo a auto-organização e autonomia dos jogadores com base no trabalho criativo e diferencial; (2) Rendimento Desportivo – uma nova forma de observar, abordar e de fazer a gestão do desporto, melhorando a preparação física dos seus desportistas numa perspectiva sistémica e integradora; (3) Análise e Tecnologia Desportiva – ferramentas inovadoras a serviço do desportista e dos funcionários, como algoritmos baseados em inteligência artificial, automatização da edição de vídeo, tecnologia e vis ao computacional, integração de dados e melhoria da precisão de tracking, realidade virtual e aumentada e ludificação; (4) Saúde e Bem- Estar – soluções de ponta, desde a medicina desportiva, investigando e desenvolvendo soluções para a prevenção, diagnóstico, tratamento e regresso aos treinos e competição pelos jogadores; (5) Fan Engagement e Big Data – gerando experiências atrativas e personalizadas para cada um de seus torcedores; (6) Instalações Inteligentes – novas tecnologias para infraestrutura desportista conectadas e eficientes; (7) Inovação Social – usando o desporto como um instrumento para o desenvolvimento de diferentes comunidades em risco de exclusão social.

Para isso, o Barcelona tem noção que não poderá trabalhar sozinho. O clube já criou um “ecossistema” para que universidade, centros de investigação e saúde, startups e grandes organizações possam trabalhar em conjunto, tendo começado uma plataforma que planejam divulgar de forma mais extensiva como um lugar onde qualquer pessoa que queira desenvolver um projeto relacionado com o desporto possa se integrar.

No mesmo mês da copa de 2018, a Federação Alemã de Futebol (DFB) deu início a um projeto que promete ser por muito tempo o ápice da tecnologia e da ciência aplicadas ao futebol. É a Academia DFB, a nova sede e centro de treinamentos e estudos da federação em Frankfurt, que já vem sendo chamada de “Vale do Silício” do futebol. O projeto é visto como um caminho natural para que a Alemanha se consolide como a maior potencia do futebol mundial. Serão investidos mais de R$ 110 milhões de euros para a construção de um complexo tecnológico e esportivo de mais de 54 mil metros quadrados, compostos por campos, academia, além de laboratórios e salas de aula.

O conceito central da Academia DFB é o de “big data, termo da informática utilizado para se referir ao armazenamento e manipulação de um grande conjunto de dados. A Academia estará em rede. O projeto reúne especialistas de diferentes áreas, como psicologia, medicina, esporte e comunicação, para trabalhar estratégias de otimização de desempenho. O projeto preocupa os demais países europeus, alarmados com o salto que o centro poderá dar aos alemães. A mudança pode ser da mesma dimensão que a revolução ocorrida nos anos 50, quando seleções adotaram preparados físicos profissionais.

Além do Barcelona e Federação Alemã, outros clubes e federações já possuem estruturas e profissionais ligados a inovação, como: Federação Portuguesa, Manchester City, Paris Saint-Germain, Juventus e a própria FIFA.

Uma nova era está a caminho e trará tantos desafios quanto oportunidades. Na era exponencial a única constante é a mudança. Só podemos ter certeza que amanhã será diferente de hoje. Esta será a nova realidade no futebol. Não se trata de “se” e sim de “quando”. Os clubes precisam se acostumar.